Big Thief e outras histórias

Consegui convencer o meu pai a chegar cedo. Estava encostada à grade que me separava do palco onde iriar atuar a banda icónica quem em 2019 editou dois álbuns, ambos extremamente aclamados pelos críticos e, mais importante ainda, por mim, que sou uma apreciadora de tudo aquelo que me transmita sentimento, seja ele bom ou mau.

No Nos Primavera Sound de 2019, deram também um concerto, ao qual eu assisti, mas que me marcou talvez da forma errada. Pareceram-me músicos extremamente distantes, sem conexão com o público. Nunca claro, menosprezando a sua técnica e o concerto que deram na altura, que foi bom, bom o suficiente para eu me lembrar dele hoje pelo menos. No entanto, no dia 17 de fevereiro de 2020, a magia da transcendência, do sorriso, da dimensão artística do ser humano, falaram muito mais alto.

Para então, vos contar a história destas 3 horas em que estive dentro do espaço do LAV, é meu dever começar pelo início. Eram nove horas quando entrei na sala, extremamente feliz por ir ficar coladinha ao palco, e, uma banda constituída por três elementos franceses, estava a tocar. Era uma música mais falada do que cantada e confesso que pouco (ou nada) me interessou. Peguei no telemóvel (como sempre, o meu primeiro instinto) e fui-me enfiar nas redes sociais. Estava eu a olhar para as fotos de conhecidos e não conhecidos que aparecem no meu feed, quando alguma coisa me chama. Era a música, pena que só mais tarde percebi. Acho que existe esse poder, esse poder que me fez largar o telemóvel e olhar nos olhos da rapariga que estava à minha frente, a sofrer ao som de uma guitarra e de uma bateria enquanto gritava por socorro. Só ouvia francês, não é uma língua que eu domine, mas despertou-me e elevou-me para um estado de contemplação. Não, não foi um concerto imperdível. Mas acho que isto, mais do que qualquer outra coisa, é a música, é a arte. É todo este processo que nos permite viver o momento.

Assim, depois desta pequena surpresa, todo o meu ser estava em grande êxtase para ouvir os Big Thief. Passei os dias anteriores a beber os dois últimos álbuns, mais do que aquilo que já tinha bebido na altura em que saíram. Os quatro elementos entraram. Cada um com o seu estilo, cada um com a sua maneira peculiar de encarar o momento, de expressar a felicidade (ou não) que estavam a sentir. Tal como acontece em todas as bandas, na verdade. Mas nesta, talvez um bocadinho mais, aquele bocadinho que é o suficiente para eu reparar e pensar sobre isso. E pronto. Tudo começou. Tocaram sempre a sentir cada nota, e transmitiam tudo isso. Not, do Two Hands, foi o ponto alto. Era a quarta música (acho eu) que tocavam, e que foi sofrida, do início ao fim, e, até certo ponto, desconfortável. Todo o instrumental, quase uma jam session, onde havia uma perfeita harmonia dissonante que elevou a sala para um patamar superior. Não sei onde era esse patamar. Mas foi bonito.

Falaram pouco na primeira metade do concerto. Também, palavras, para que vos quero? Estava tudo o que era preciso. Tocaram músicas novas, inéditas que não eram conhecidas em lado nenhum, por ninguém. E depois desse momento, posso dizer, talvez menos eufórico, apesar de o concerto nunca ter de facto trazido gritos extremos, vieram algumas antigas. Masterpiece foi mais um momento intenso, com muitas cabeças a abanar e sorrisos que os músicos retribuíram para o público. Era a energia, o que quiserem chamar. Mas era alguma coisa, e tenho a certeza que toda a gente o sentiu.

Engraçado foram ainda, os momentos em que Adrianne, a vocalista, pedia aos membros da banda para recomeçar músicas que não estavam a soar devidamente, como uma música digna dos Big Thief deve soar. “Mais lento…” ou “Esqueci-me do resto da canção…”. E um ambiente familiar, reforçado também pela sala onde estávamos marcava ainda mais o concerto. Esta grande maestra, começou-se assim, a soltar, a deixar sair algumas palavras em português e tudo se tornou ainda mais especial. Mais único, talvez, mais irrepetível.

A certa altura, já mais para o final, a vocalista pega numa guitarra de 12 cordas que não consegue afinar. Na minha opinião, que vale o que vale, estava perfeita, mas a frustração, a necessidade de tudo correr perfeitamente bem, ou pelo menos como planeado, foi mais forte, e a música para a qual o uso da guitarra era imperativo não foi tocada. Acho que isso quebrou um bocado o ritmo, e o sorriso já não era o mesmo. Mas também por isso, as músicas seguintes, as finais, foram tocadas de uma forma diferente, mais crua, mais sofrida. Fiquei grata. Bendita guitarra.

Nenhum concerto é igual ao outro e este era o primeiro concerto da tour, o primeiro concerto num espaço de 3 meses. E acho, não, tenho mesmo a certeza, que a autenticidade, o carácter experimental foi fundamental para lançar uns pozinhos de magia e tornar tudo ainda mais exclusivo. Não tivessem sido estes momentos, se calhar não estava eu a aqui a escrever sobre isto. Não foi só mais um espaço para tocar uma data de músicas que as pessoas querem ouvir. Aliás, foi exatamente o contrário. Resta-vos a vocês imaginar o que esse contrário foi, porque é um cenário que vale a pena ser imaginado.

Publicado por campainhaamarela

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