Anabela sentia-se sozinha. Estava sentada num jardim qualquer que tinha encontrado por acaso, num daqueles dias em que nada se parece com o calendário que outrora planeámos para a nossa vida. Aqueles dias em que é preciso pôr os óculos de sol, mesmo estando no ar um nevoeiro cansativo, que nada nos permite ver. Lia um livro, tentava abstrair-se de tudo o que a vida ainda não lhe tinha dado. Passavam pessoas, mas ela não estava preocupada com isso. Só queria poder residir por momentos, fora do mundo real, fora de tudo o que torna o tempo tão desesperante.
Henrique estava num daqueles dias em que tudo parece perfeito. O café que tomara de manhã parecia ter feito magia, porque nunca na história da sua existência se tinha sentido assim. Mas queria sentir-se assim todos os dias. Dava voltas no seu jardim preferido, voltas iguais umas às outras, repetidamente, estava a gostar de ver as suas pernas baloiçarem ao ritmo da música do mundo enquanto prosseguia com o seu andar.
Subitamente, os seus olhares cruzaram-se. Podia ter sido um cruzamento momentâneo; mas não. Porque nenhum deles foi capaz de desviar o olhar. Não sabiam porquê, mas o universo unia-os. Anabela largou o livro. Henrique fez parar o seu andar dançante. Uma lágrima desceu pelo rosto de ambos. Era uma força. Completavam-se. As vozes do jardim tinham sessado. Lentamente aproximaram-se, sem nunca largarem o olhar puro um do outro. Abraçaram-se como se nunca antes tivessem abraçado ninguém. O encantamento de uma criança perante uma primeira vez. Era isso. Era tão isso. Um abraço que ficou petrificado no tempo. Havia uma multidão de pessoas à volta deles com uma lágrima no rosto também. Uma energia humana tomava conta daquele jardim público. As gentes no seu estado mais cru.
