Desde há muito, muito tempo, que os álbuns de Nick Cave fazem parte da minha existência. E isso devo muito ao meu pai, por ser um adepto de boa música e por me levar com ele para longas tardes no sofá, embebidas em álbuns que eu, na altura, nunca pensei virem a ter um papel tão único como agora têm na minha vida. Este tal Nick Cave foi uma destas descobertas. Não sabia quem ele era, nem tão pouco compreendia a essência das suas músicas. Mas tudo começa da ignorância humana.
Quando pela primeira vez tomei consciência de quem de facto era esta personalidade, nem tinha ideia de que sabia algumas das músicas que constavam nos seus álbuns. Houve uma altura em que o meu pai os passava muito no carro e eu inconscientemente, fixava as letras, ou pensava que fixava. O meu inglês era mau nesses tempos. O meu pai, em certo momento, volta a falar nele, volta a rodar os seus álbuns e conhecendo eu algumas músicas, outras não, estranhei aquele som. Confesso que era nova, tinha recentemente saído daquilo a que se pode chamar a fase “pimba” acho eu. Estava a tentar descobrir outras coisas que me estimulassem. No entanto, aquilo ainda não me convencia. Era estranho, quase falado, mórbido, tudo coisas que pensei, mas que agora me ajudam a entender esta arte ainda melhor.
Começava eu, então, a acompanhar o meu pai em atividades culturais. Fomos ao cinema do El Corte Inglês ver, numa grande sala, um concerto gravado deste tal Nick Cave. Até tenho vergonha de dizer isto, mas a verdade é que adormeci. Estava extremamente cansada, encostei-me ao ombro do meu pai e o sono tomou conta de mim. Fiquei triste, embora não pudesse fazer nada, e esta ocorrência rapidamente deixou o meu pensamento e eu segui o meu caminho.
Surge mais outra proposta do meu (grande) pai. Ir ao Nos Primavera Sound no Porto, isto em 2018, ver o Nick Cave. Parecia que este homem não saia do meu caminho (ainda bem percebi eu mais tarde). Não hesitei em dizer que sim. Um festival, no Porto, parecia-me uma situação bonita e digna da minha presença e da do meu pai.
Momentos mágicos vivi eu nesse dia de festival. Chuva. Chuva que soube mesmo bem e que me deixou ainda mais grata por estar ali a viver, a sentir. Nick Cave subiu ao palco, o último concerto da noite. Pena já estar eu de rastos. Doíam-me as costas, tinha sono, mais uma vez e um homem altíssimo impedia que eu pudesse vislumbrar uma ponta do palco. Ainda tentei aguentar-me direita, sentir a música, mas o cansaço foi mais forte. Não conhecia estas músicas que ele cantava e encostei-me ao peito do meu pai até que o concerto acabasse. Aproveitei. Aproveitei mais do que na altura me apercebi. Com os olhos fechados, a chuva a bater-me no casaco, ia absorvendo o que ouvia, e soube-me bem. Acho que, embora não o tenha entendido, este foi um momento fulcral naquilo que foi o meu desenvolvimento, quer em termos músicas, quer em muitos outros termos fundamentais ao ser humano.
O festival acabou, os tempos foram passando e eu desliguei um bocado deste Cave. Acho que fiquei tanto tempo sem o ouvir que houve um certo ponto em que a sua música se tornava extremamente desagradável aos meus ouvidos. Até que o seu nome voltou a surgir no meu radar quando lançou o álbum “Ghosteen”. Chegava eu a casa depois de ter estado com as minhas amigas, e estava o meu pai, no seu cantinho sagrado do sofá da sala, a ouvir esta novidade. Detestei. Não há outra palavra. Que cansativo, monótono, sem ritmo. Nunca tive coragem para ir eu sozinha ouvir o álbum, parecia-me algo demasiado distante de tudo o resto que a minha cabeça tinha capacidade para absorver. Até ao dia.
Tinha corrido tudo mal. Estava no sofá depois de chegar da escola, sem vontade nenhuma de me levantar, de enfrentar o mundo. Não me apetecia ouvir nada, sentia que não havia uma música que eu pudesse suportar naquele momento. Tudo demasiado vazio, demasiado oco para a minha cabeça extremamente ativa naquele momento, com pensamentos que não lembram a ninguém. Olhei uma última vez para a minha biblioteca do spotify e vi o nome: Nick Cave. Porque não? Vamos tentar dar uma oportunidade. E dei. E acho que nunca uma música se encaixou tão bem em mim. Fechei os olhos, absorvi cada nota, cada suspiro e aquele álbum entrou na minha vida como nenhum outro. Parecia que me conhecia. Foi tão estranho, mas tão reconfortante que eu deixei-o tocar, e tocar, e tocar.
Tirei as minhas conclusões posteriormente, e decidi que este era o álbum que devia ouvir quando estivesse profundamente triste e não houvesse nada do qual eu me conseguisse socorrer. Assim fiz e a mesma sensação vinha. E eu contentei-me e conformei-me com a situação, pelo menos por uns tempos.
Houve, no entanto, uma altura, em que o meu corpo, a minha mente, todo o meu ser pedia mais. Estava-se a tornar uma coisa viciante. Já não era só nas profundas tristezas, era em tantas outras situações. Ajudou-me a passar, momentos bons e maus. Até pus a tocar a “Spinning Song” a primeira música do álbum, no início de uma aula de Matemática a propósito de uma reflexão. Deixei de achar que era só para algumas situações, para perceber que era em quase todas que “aquilo” me completava.
Agora, como podem imaginar, foi sempre a crescer. Dei por mim a ouvir os seus álbuns mais antigos, a pedi-los ao meu pai para os pôr a tocar no carro. Ver o sorriso na cara de quem introduziu esta figura na minha vida, por ver a sua partilha com a filha fazer ainda mais sentido, foi gratificante, imensamente bonito. No metro, a fazer exercícios de português, a preparar-me para uma sesta no sofá, todos estes álbuns me acompanham. Ultimamente, tem havido dias em que não consigo ouvir outra coisa. Ou é Nick Cave, ou endoideço.
Uma relação que nunca tinha conhecido. É tão especial ver esta evolução, ver como nós crescemos, como as coisas mudam. Como temos de experimentar, dar segundas oportunidades. Sou outra pessoa desde aqueles dias em que me sentava com o meu pai no sofá a ouvir música desconhecida e que não me dizia nada. Ou se calhar dizia, eu é que não me apercebia. Acho que esses pequenos momentos me moldaram. Eu não seria eu se este tal Nick Cave não tivesse invadido a minha vida com a sua música, as suas letras, a sua dor e, também, a sua alegria. Faz parte da minha vida agora, e tudo isto, integra-se no meu ser como um todo. Que felicidade ao escrever, ao expressar este lado importante do meu eu.
Não podia deixar de ser. Um obrigado ao meu pai que me empurrou para este mundo, que puxou pela parte artística que há em mim e que me acompanha em tantas coisas da vida. E claro, por ter comprado o meu bilhete para ir ver no dia 19 de abril, agora na primeira fila e sem dores nas gostas, o meu acompanhante, o grande génio, o Nick Cave.
