Obituário?

Eu sinto a banalidade. Que horror. Sabe mal, cheira mal.

No entanto, sou eu que lhe dou estas características. Oh, porquê?

Não, recuso-me. Afasta-te de mim. Essa palavra, essa propriedade não te define.

Bem, define se tu quiseres.

Olhei em frente para aquela última página e a banalidade nunca foi tão bonita.

Bem, agora já pode definir.

Tu dás-lhe os contornos que quiseres. És tu que a escolhes. A liberdade é uma coisa horrível. Não gosto desta responsabilidade.

Então deixa de deixar a vida fluir. Vê para além desses olhos escuros. Porque nem tudo o que é mau é escuro.

Essas coisas, esses pensamentos que tens como teus, são mais que comuns, e mesmo assim não perdem o seu encanto.

Vais aprender a lidar com isso. O feio e o bonito. É tudo relativo.

Prometo que vou tentar largar. Virar-me para os momentos mais ridículos, mais desprovidos de sentimento e abraçá-los com toda aquela força que estive a guardar durante todo este tempo.

Por achar que esses não são dignos. Mas são, mais do que eu posso imaginar.

Por isso olá a tudo aquilo que é igual a tudo aquilo.

Tive saudades.

No entanto, vou continuar com a minha diferença.

Que é igual à dos outros (?)

(bem-vindos à minha cabeça depois de ler Stoner de John Williams. Um livro. Eis o meu diálogo interior. Não me julguem. Não de facto podem julgar. É também para isso que cá estamos.)

Nick Cave e Eu

Desde há muito, muito tempo, que os álbuns de Nick Cave fazem parte da minha existência. E isso devo muito ao meu pai, por ser um adepto de boa música e por me levar com ele para longas tardes no sofá, embebidas em álbuns que eu, na altura, nunca pensei virem a ter um papel tão único como agora têm na minha vida. Este tal Nick Cave foi uma destas descobertas. Não sabia quem ele era, nem tão pouco compreendia a essência das suas músicas. Mas tudo começa da ignorância humana.

                Quando pela primeira vez tomei consciência de quem de facto era esta personalidade, nem tinha ideia de que sabia algumas das músicas que constavam nos seus álbuns. Houve uma altura em que o meu pai os passava muito no carro e eu inconscientemente, fixava as letras, ou pensava que fixava. O meu inglês era mau nesses tempos. O meu pai, em certo momento, volta a falar nele, volta a rodar os seus álbuns e conhecendo eu algumas músicas, outras não, estranhei aquele som. Confesso que era nova, tinha recentemente saído daquilo a que se pode chamar a fase “pimba” acho eu. Estava a tentar descobrir outras coisas que me estimulassem. No entanto, aquilo ainda não me convencia. Era estranho, quase falado, mórbido, tudo coisas que pensei, mas que agora me ajudam a entender esta arte ainda melhor.

                Começava eu, então, a acompanhar o meu pai em atividades culturais. Fomos ao cinema do El Corte Inglês ver, numa grande sala, um concerto gravado deste tal Nick Cave. Até tenho vergonha de dizer isto, mas a verdade é que adormeci. Estava extremamente cansada, encostei-me ao ombro do meu pai e o sono tomou conta de mim. Fiquei triste, embora não pudesse fazer nada, e esta ocorrência rapidamente deixou o meu pensamento e eu segui o meu caminho.

                Surge mais outra proposta do meu (grande) pai. Ir ao Nos Primavera Sound no Porto, isto em 2018, ver o Nick Cave. Parecia que este homem não saia do meu caminho (ainda bem percebi eu mais tarde). Não hesitei em dizer que sim. Um festival, no Porto, parecia-me uma situação bonita e digna da minha presença e da do meu pai.

                Momentos mágicos vivi eu nesse dia de festival. Chuva. Chuva que soube mesmo bem e que me deixou ainda mais grata por estar ali a viver, a sentir. Nick Cave subiu ao palco, o último concerto da noite. Pena já estar eu de rastos. Doíam-me as costas, tinha sono, mais uma vez e um homem altíssimo impedia que eu pudesse vislumbrar uma ponta do palco. Ainda tentei aguentar-me direita, sentir a música, mas o cansaço foi mais forte. Não conhecia estas músicas que ele cantava e encostei-me ao peito do meu pai até que o concerto acabasse. Aproveitei. Aproveitei mais do que na altura me apercebi. Com os olhos fechados, a chuva a bater-me no casaco, ia absorvendo o que ouvia, e soube-me bem. Acho que, embora não o tenha entendido, este foi um momento fulcral naquilo que foi o meu desenvolvimento, quer em termos músicas, quer em muitos outros termos fundamentais ao ser humano.

                O festival acabou, os tempos foram passando e eu desliguei um bocado deste Cave. Acho que fiquei tanto tempo sem o ouvir que houve um certo ponto em que a sua música se tornava extremamente desagradável aos meus ouvidos. Até que o seu nome voltou a surgir no meu radar quando lançou o álbum “Ghosteen”. Chegava eu a casa depois de ter estado com as minhas amigas, e estava o meu pai, no seu cantinho sagrado do sofá da sala, a ouvir esta novidade. Detestei. Não há outra palavra. Que cansativo, monótono, sem ritmo. Nunca tive coragem para ir eu sozinha ouvir o álbum, parecia-me algo demasiado distante de tudo o resto que a minha cabeça tinha capacidade para absorver. Até ao dia.

                Tinha corrido tudo mal. Estava no sofá depois de chegar da escola, sem vontade nenhuma de me levantar, de enfrentar o mundo. Não me apetecia ouvir nada, sentia que não havia uma música que eu pudesse suportar naquele momento. Tudo demasiado vazio, demasiado oco para a minha cabeça extremamente ativa naquele momento, com pensamentos que não lembram a ninguém. Olhei uma última vez para a minha biblioteca do spotify e vi o nome: Nick Cave. Porque não? Vamos tentar dar uma oportunidade. E dei. E acho que nunca uma música se encaixou tão bem em mim. Fechei os olhos, absorvi cada nota, cada suspiro e aquele álbum entrou na minha vida como nenhum outro. Parecia que me conhecia. Foi tão estranho, mas tão reconfortante que eu deixei-o tocar, e tocar, e tocar.

                Tirei as minhas conclusões posteriormente, e decidi que este era o álbum que devia ouvir quando estivesse profundamente triste e não houvesse nada do qual eu me conseguisse socorrer. Assim fiz e a mesma sensação vinha. E eu contentei-me e conformei-me com a situação, pelo menos por uns tempos.

                Houve, no entanto, uma altura, em que o meu corpo, a minha mente, todo o meu ser pedia mais. Estava-se a tornar uma coisa viciante. Já não era só nas profundas tristezas, era em tantas outras situações. Ajudou-me a passar, momentos bons e maus. Até pus a tocar a “Spinning Song” a primeira música do álbum, no início de uma aula de Matemática a propósito de uma reflexão. Deixei de achar que era só para algumas situações, para perceber que era em quase todas que “aquilo” me completava.

                Agora, como podem imaginar, foi sempre a crescer. Dei por mim a ouvir os seus álbuns mais antigos, a pedi-los ao meu pai para os pôr a tocar no carro. Ver o sorriso na cara de quem introduziu esta figura na minha vida, por ver a sua partilha com a filha fazer ainda mais sentido, foi gratificante, imensamente bonito. No metro, a fazer exercícios de português, a preparar-me para uma sesta no sofá, todos estes álbuns me acompanham. Ultimamente, tem havido dias em que não consigo ouvir outra coisa. Ou é Nick Cave, ou endoideço.

                Uma relação que nunca tinha conhecido. É tão especial ver esta evolução, ver como nós crescemos, como as coisas mudam. Como temos de experimentar, dar segundas oportunidades. Sou outra pessoa desde aqueles dias em que me sentava com o meu pai no sofá a ouvir música desconhecida e que não me dizia nada. Ou se calhar dizia, eu é que não me apercebia. Acho que esses pequenos momentos me moldaram. Eu não seria eu se este tal Nick Cave não tivesse invadido a minha vida com a sua música, as suas letras, a sua dor e, também, a sua alegria. Faz parte da minha vida agora, e tudo isto, integra-se no meu ser como um todo. Que felicidade ao escrever, ao expressar este lado importante do meu eu.

                Não podia deixar de ser. Um obrigado ao meu pai que me empurrou para este mundo, que puxou pela parte artística que há em mim e que me acompanha em tantas coisas da vida. E claro, por ter comprado o meu bilhete para ir ver no dia 19 de abril, agora na primeira fila e sem dores nas gostas, o meu acompanhante, o grande génio, o Nick Cave.

O (re)encontro

Anabela sentia-se sozinha. Estava sentada num jardim qualquer que tinha encontrado por acaso, num daqueles dias em que nada se parece com o calendário que outrora planeámos para a nossa vida. Aqueles dias em que é preciso pôr os óculos de sol, mesmo estando no ar um nevoeiro cansativo, que nada nos permite ver. Lia um livro, tentava abstrair-se de tudo o que a vida ainda não lhe tinha dado. Passavam pessoas, mas ela não estava preocupada com isso. Só queria poder residir por momentos, fora do mundo real, fora de tudo o que torna o tempo tão desesperante.

Henrique estava num daqueles dias em que tudo parece perfeito. O café que tomara de manhã parecia ter feito magia, porque nunca na história da sua existência se tinha sentido assim. Mas queria sentir-se assim todos os dias. Dava voltas no seu jardim preferido, voltas iguais umas às outras, repetidamente, estava a gostar de ver as suas pernas baloiçarem ao ritmo da música do mundo enquanto prosseguia com o seu andar.

Subitamente, os seus olhares cruzaram-se. Podia ter sido um cruzamento momentâneo; mas não. Porque nenhum deles foi capaz de desviar o olhar. Não sabiam porquê, mas o universo unia-os. Anabela largou o livro. Henrique fez parar o seu andar dançante. Uma lágrima desceu pelo rosto de ambos. Era uma força. Completavam-se. As vozes do jardim tinham sessado. Lentamente aproximaram-se, sem nunca largarem o olhar puro um do outro. Abraçaram-se como se nunca antes tivessem abraçado ninguém. O encantamento de uma criança perante uma primeira vez. Era isso. Era tão isso. Um abraço que ficou petrificado no tempo. Havia uma multidão de pessoas à volta deles com uma lágrima no rosto também. Uma energia humana tomava conta daquele jardim público. As gentes no seu estado mais cru.

Big Thief e outras histórias

Consegui convencer o meu pai a chegar cedo. Estava encostada à grade que me separava do palco onde iriar atuar a banda icónica quem em 2019 editou dois álbuns, ambos extremamente aclamados pelos críticos e, mais importante ainda, por mim, que sou uma apreciadora de tudo aquelo que me transmita sentimento, seja ele bom ou mau.

No Nos Primavera Sound de 2019, deram também um concerto, ao qual eu assisti, mas que me marcou talvez da forma errada. Pareceram-me músicos extremamente distantes, sem conexão com o público. Nunca claro, menosprezando a sua técnica e o concerto que deram na altura, que foi bom, bom o suficiente para eu me lembrar dele hoje pelo menos. No entanto, no dia 17 de fevereiro de 2020, a magia da transcendência, do sorriso, da dimensão artística do ser humano, falaram muito mais alto.

Para então, vos contar a história destas 3 horas em que estive dentro do espaço do LAV, é meu dever começar pelo início. Eram nove horas quando entrei na sala, extremamente feliz por ir ficar coladinha ao palco, e, uma banda constituída por três elementos franceses, estava a tocar. Era uma música mais falada do que cantada e confesso que pouco (ou nada) me interessou. Peguei no telemóvel (como sempre, o meu primeiro instinto) e fui-me enfiar nas redes sociais. Estava eu a olhar para as fotos de conhecidos e não conhecidos que aparecem no meu feed, quando alguma coisa me chama. Era a música, pena que só mais tarde percebi. Acho que existe esse poder, esse poder que me fez largar o telemóvel e olhar nos olhos da rapariga que estava à minha frente, a sofrer ao som de uma guitarra e de uma bateria enquanto gritava por socorro. Só ouvia francês, não é uma língua que eu domine, mas despertou-me e elevou-me para um estado de contemplação. Não, não foi um concerto imperdível. Mas acho que isto, mais do que qualquer outra coisa, é a música, é a arte. É todo este processo que nos permite viver o momento.

Assim, depois desta pequena surpresa, todo o meu ser estava em grande êxtase para ouvir os Big Thief. Passei os dias anteriores a beber os dois últimos álbuns, mais do que aquilo que já tinha bebido na altura em que saíram. Os quatro elementos entraram. Cada um com o seu estilo, cada um com a sua maneira peculiar de encarar o momento, de expressar a felicidade (ou não) que estavam a sentir. Tal como acontece em todas as bandas, na verdade. Mas nesta, talvez um bocadinho mais, aquele bocadinho que é o suficiente para eu reparar e pensar sobre isso. E pronto. Tudo começou. Tocaram sempre a sentir cada nota, e transmitiam tudo isso. Not, do Two Hands, foi o ponto alto. Era a quarta música (acho eu) que tocavam, e que foi sofrida, do início ao fim, e, até certo ponto, desconfortável. Todo o instrumental, quase uma jam session, onde havia uma perfeita harmonia dissonante que elevou a sala para um patamar superior. Não sei onde era esse patamar. Mas foi bonito.

Falaram pouco na primeira metade do concerto. Também, palavras, para que vos quero? Estava tudo o que era preciso. Tocaram músicas novas, inéditas que não eram conhecidas em lado nenhum, por ninguém. E depois desse momento, posso dizer, talvez menos eufórico, apesar de o concerto nunca ter de facto trazido gritos extremos, vieram algumas antigas. Masterpiece foi mais um momento intenso, com muitas cabeças a abanar e sorrisos que os músicos retribuíram para o público. Era a energia, o que quiserem chamar. Mas era alguma coisa, e tenho a certeza que toda a gente o sentiu.

Engraçado foram ainda, os momentos em que Adrianne, a vocalista, pedia aos membros da banda para recomeçar músicas que não estavam a soar devidamente, como uma música digna dos Big Thief deve soar. “Mais lento…” ou “Esqueci-me do resto da canção…”. E um ambiente familiar, reforçado também pela sala onde estávamos marcava ainda mais o concerto. Esta grande maestra, começou-se assim, a soltar, a deixar sair algumas palavras em português e tudo se tornou ainda mais especial. Mais único, talvez, mais irrepetível.

A certa altura, já mais para o final, a vocalista pega numa guitarra de 12 cordas que não consegue afinar. Na minha opinião, que vale o que vale, estava perfeita, mas a frustração, a necessidade de tudo correr perfeitamente bem, ou pelo menos como planeado, foi mais forte, e a música para a qual o uso da guitarra era imperativo não foi tocada. Acho que isso quebrou um bocado o ritmo, e o sorriso já não era o mesmo. Mas também por isso, as músicas seguintes, as finais, foram tocadas de uma forma diferente, mais crua, mais sofrida. Fiquei grata. Bendita guitarra.

Nenhum concerto é igual ao outro e este era o primeiro concerto da tour, o primeiro concerto num espaço de 3 meses. E acho, não, tenho mesmo a certeza, que a autenticidade, o carácter experimental foi fundamental para lançar uns pozinhos de magia e tornar tudo ainda mais exclusivo. Não tivessem sido estes momentos, se calhar não estava eu a aqui a escrever sobre isto. Não foi só mais um espaço para tocar uma data de músicas que as pessoas querem ouvir. Aliás, foi exatamente o contrário. Resta-vos a vocês imaginar o que esse contrário foi, porque é um cenário que vale a pena ser imaginado.

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